Cana-de-açúcar

A Madeira na rota do açúcar

  • 22 Janeiro, 2013

O açúcar é de todos os produtos que acompanharam a diáspora europeia aquele que moldou, com maior relevo, a mundividência quotidiana das novas sociedades e economias que, em muitos casos, se afirmaram como resultado dele. A cana sacarina, pelas especificidades do seu cultivo, especializam e morosidade do processo de transformação em açucar, implicou uma vivência particular, assente num específico complexo sócio-cultural da vida e convivência humana.
Neste contexto a Madeira manteve uma posição relevante, por ter sido a primeira área do espaço atlântico a receber a nova cultura. E, por isso mesmo, aqui se definiram os primeiros contornos desta realidade, que teve plena afirmação nas Antilhas e Brasil. Foi na Madeira que a cana-de-açúcar iniciou a diáspora atlâtica. Aqui surgiram os primeiros contornos sociais (a escravatura), técnicos (engenho de água) e político-económicos (trilogia rural) que materializaram a civilização do açúcar. Por tudo isto toma-se imprescindível uma análise da situação madeirense, caso estejamos interessados em definir, exaustivamente, a civilização do açúcar no mundo atlântico.


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A Madeira na rota do açúcar


De acordo com a ideia de que a civilização do açúcar teve apenas uma única forma de expressão no Atlântico Ocidental e Oriental, partiu-se para a afirmações precipitadas na análise da economia e sociedade que lhe serviu de base. Ao açúcar associou a Historiografia, desde muito cedo, a escravatura, fazendo juz à afirmação de Antonil(1711), de que “os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho”.
As cruzadas, segundo a Historiografia europeia, foram o princípio da expansão da cultura açucareira e da sua vinculação aos escravos. Deste modo nas colónias italianas do Mediterrâneo Oriental surgem os primeiros resquícios da nova dinâmica social que passaria à Sicília e, depois à Madeira, donde se expandiram no Atlâtico. Diz-se, ainda, que a ligação ou não do escravo negro à cultura dos canaviais foi uma invenção do Ocidente cristão, não havendo lugar no mundo muçulmano. Todavia, na actualidade a situação parece ser distinta. Novas aportações revelam que a relação escravo/açúcar não é tão linear, como à primeira vista parece. Daqui resultou esta reflexão sobre o problema na Madeira, que assume desmesurado interesse tendo em conta o facto de ter sido o princípio de tudo o que sucedeu no mundo atlântico.

Fonte: VIEIRA, Alberto, Escravos com e sem açúcar, CEHA, Funchal, pp.93, 94

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